Agora são 7:20 da manhã e eu estou saindo da estação de trem de Ferraz de Vasconcelos com destino à Avenida Paulista.

O trem está menos cheio do que de costume então vou aproveitar para escrever sobre o dia que postei uma historia sobre o dia que chamei por minha mãe (?); uma pequena reflexão sobre a forma como pessoas e marcas contam boas histórias e como consumidores se associam a elas.

O dia que chamei por minha mãe

Se você é meu amigo no Facebook, sabe que gosto de postar algumas histórias de coisas que acontecem comigo.

Essa é a forma que uso para exercitar escrita criativa, fazer com que ex-colegas de trabalho se lembrem de mim e testar meu “poder” de influência.

E na semana passada eu contei a história do dia que chamei por minha mãe.

Nada de mais, né? Quem nunca chamou a esposa de mãe, a professora de mãe ou ficou com muito medo e chamou pela mãe? Acho que todo mundo (ou não. Posso ter algum problema).

Mas a forma como contei minha história – sem exageros e sem mentiras (só fatos) – de alguma forma chamou atenção de muita gente.

Dá uma lida:

Vamos pensar aqui:

– tenho 1113 amigos no Facebook;
– foram mais de 100 interações de sentimento;
– 20 comentários;
– cada uma dessas pessoas têm em média 300 amigos;
– o Facebook entrega as postagens e interações para uns 20, 30% da base.

Qual o impacto disso? Muita gente (até tenho como saber, mas estou dentro do trem neste momento e não tenho recursos pra isso)!

Mas por que as pessoas gostaram tanto dessa postagem?

Uma buzzword vem rodando a comunicação digital nos últimos anos: storytelling.

Saber contar uma história ou contar uma boa história. Isso explica muita coisa.

Exemplos:

O vendedor ambulante:

Neste momento no trem – estação Itaquera da CPTM, 7:40am – está passando um vendedor de adaptor de pen drives para celular. Ele tá contando a seguinte história:

“Amigos, trago aqui comigo a solução para grande parte dos seus problemas: Você já tentou baixar uma imagem no WhatsApp e não conseguiu por falta de espaço? Tentou baixar aquele episódio da sua série favorita do Netflix e não tinha espaço? Já teve que apagar suas fotos favoritas por falta de espaço? Amigos, olhem aqui pra mim: esse pequeno dispositivo – vendido mundialmente e presente nas maiores feiras de tecnologia do mundo – quando conectado no celular, transforma seu celular num sistema de conteúdo. Acesse seus vídeos, documentos da faculdade, tudo… Por apenas 5 reais.”

Em suma: pelo menos 90% da galera no trem se associou com a história do vendedor. Quem nunca teve que apagar fotos do celular por falta de espaço? Todo mundo olhou pro cara e prestou atenção naquela história por conta da associação. Eu mesmo já comprei um desses (e nunca usei).

O segredo dos influenciadores digitais

8:16am. Acabei de chegar na estação da Luz e enquanto tomo meu café no monsterdog (café com leite e pao de queijo), lembrei que na Filmecon de 2016, o Felipe Castanhari (na minha opinião, o melhor Youtuber da atualidade) falou que é muito chato quando o Youtuber trabalha dias, gasta muita grana e usa muitos recursos para fazer um vídeo super bem produzido, com um conteúdo rico e legal para o público, mas o que mais bomba naquele momento é o vlog sobre histórias com ex-namoradas.

E por que os vloguers – que se popularizaram no país com Felipe Neto falando o que eu sempre quis falar sobre crepúsculo – fazem tanto sucesso?

De novo: por conta da associação que o telespectador tem com aquela história e com a pessoa que está contando.

Uma vez eu li (não me lembro onde) que o segredo do sucesso do Whindersson Nunes é o simples fato dele saber contar boas histórias que as pessoas se associam. E faz sentido, pois os vídeos dele não têm muita produção. É só uma Gopro com uma boa luz.

Mas todo mundo quando vê um vídeo dele pensa em algum momento: “caramba, é verdade. Isso acontecia mesmo na minha infância”.

Propaganda e marketing

Neste momento eu tô passando pela esteira sem fim que liga a linha amarela com a verde na Paulista. 8:30am. Têm um banner do Netflix contando a história da série Samantha, que era muito famosa nos anos 90, assim com as fitas VHS. Mano, que da hora. Vou ver essa serie. Eu tinha uma aparelho VHS. Me identifiquei.

Cheguei agora na Paulista. São 8:36am e na estação Trianon MASP tem um banner do Uber com foto, nome e pontuação do motorista parceiro. Mais associação! Você não vai de Uber pra casa, você vai com o Roberto, motorista parceiro 4.8.

8:38am. Cheguei no prédio da empresa. Tem um outdoor perto do MASP com um anúncio do Spotify: “o que o Spotify para você?”. Logo em seguida, alguns depoimentos de usuários que compartilharam a resposta. Storytelling espontâneo. A associação é ainda maior.

Todas as marcas querem poder fazer isso: fazer propagandas que as pessoas se associem e se engagem. Mas isso não é tão simples.

Para isso, seus valores, conceitos, identidades e experiências devem estar de acordo. Se não, a história pode ser um fiasco.

O que eu aprendi com isso?

Agora são 8:53am estou no jardim do prédio da empresa e já revisei (ou tentei pelo menos) e cheguei nas seguintes conclusões:

– Que uma história trágica (afinal eu tive um surto de ansiedade) pode ser engraçada dependendo da forma como ela é contada;
– Os publicitários têm muito o que aprender com os vendedores ambulantes;
– O segredo do sucesso dos Youtubers, principalmente do Whindersson Nunes, é que as pessoas se associam com as histórias que ele conta;
– Marcas e produtos podem contar boas histórias, desde que esteja de acordo com o DNA da empresa;
– Levei quase duas horas para chegar na Paulista
– Da pra escrever um texto de 1000 palavras no trajeto de Ferraz de Vasconcelos até á Avenida Paulista;

São 9:02am e eu fui primeiro a chegar na empresa.

Meu nome é Müller, se fala Miller, mas me chamam de Mulher.
Sou criador de conteúdo, publicitário, designer e empreendedor.
Nas horas vagas gosto de ler, ouvir música, viajar, ver filmes, assistir séries e falar sobre essas coisas.
Conheça meu blog: www.ceroulablog.com